Observatório lança dossiê inédito sobre shows com dinheiro público no Brasil

Fruto de seis meses de pesquisa, relatório Farras mostra quem são os artistas que mais receberam cachês de prefeituras e governos estaduais desde 2024; apenas 40 bandas ganharam R$ 3 bilhões em contratos assinados até o primeiro trimestre de 2026; Nordeste lidera gastos entre regiões

Gilberto Mauro

Por Alceu Luís Castilho / revista: De Olho nos Ruralistas

O que está por trás da indústria dos shows públicos no Brasil? Quem realmente está lucrando com essa gastança?

A imprensa brasileira tem noticiado com mais atenção os valores exorbitantes pagos pelo poder público na contratação de artistas. Essas contratações acontecem, quase sempre, por inexigibilidade de licitação. Isto é, pela notoriedade do artista. Sem concorrência e sem justificativas concretas sobre o valor empenhado em cachês cada vez mais inflacionados. Os municípios que contratam esses shows têm dinheiro para isso? Essa deveria ser a prioridade?

Durante seis meses, a equipe de pesquisa do De Olho nos Ruralistas mergulhou em um universo de mais de 20 mil contratos, quase 40% deles ausentes na principal referência para jornalistas e pesquisadores, o Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP). E constatou uma escala de gastos muito maior do que aquela até agora noticiada.

O resultado dessa pesquisa é o relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, publicado nesta quarta-feira, 1º de julho. No que se refere aos shows realizados em 2024, 2025 e início de 2026, cem bandas receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Ao todo, o valor do top 100 ultrapassa os R$ 5 bilhões. Isso levando em conta contratos firmados até 31 de março de 2026, data de fechamento da pesquisa de dados — para podermos viabilizar as comparações e a divulgação.

Dentro desse top 100 há um grupo ainda mais exclusivo: o de artistas que ultrapassaram o rubicão dos R$ 50 milhões em contratos públicos. Esses 40 nomes receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões desde janeiro de 2024. Um valor que se aproxima do recorde de captação pela Lei Rouanet, de R$ 3,41 bilhões em 2025. Com duas diferenças: 1) apenas a quantia do top 40 sai diretamente dos cofres públicos; 2) a Lei Rouanet se refere a diversas expressões artísticas, não somente a música.

baixe o relatório completo aqui - https://drive.google.com/file/d/1XDAsVh1XbaxBhKG-IWRf_iemjgVy6IZT/view?usp=sharing

Mas há outras camadas que costumam ser deixadas de lado. Entre elas, as econômicas. As bets e o agronegócio são igualmente importantes para entendermos o circuito dos shows públicos. Em paralelo ao poder das produtoras — os artistas estão longe de ser o último elo da cadeia de contratos.

O PODER BILIONÁRIO DAS PRODUTORAS

Nossa investigação mostrou que há uma concentração ainda maior em um grupo de cinco produtoras nordestinas que, sozinhas, receberam R$ 2,42 bilhões — quase metade do valor obtido pelo top 100. Isso considerando apenas artistas que receberam pelo menos R$ 10 milhões cada em verbas de prefeituras e governos estaduais. Boa parte desse valor, R$ 1,78 bi, corresponde às bandas do top 40 — aquelas que receberam pelo menos R$ 50 milhões cada uma. Isso equivale a 58% do total acumulado pelos “escolhidos”.

Esse oligopólio é liderado por dois cantores: Wesley Safadão, sócio da Camarote Shows e 3º colocado entre os artistas que mais receberam dinheiro público no Brasil; e Xand Avião, da produtora Vybbe, 10º lugar na lista. Muito além de serem concorrentes, os antigos amigos Xand e Safadão ilustram a partir de suas empresas o quanto o universo dos shows públicos no Brasil tem a participação ativa das bets e do agronegócio. Não se trata somente de uma história de mau uso de dinheiro, mas de entender como se move o capital.

E não para por aí: essas bandas têm em seu portfólio 21 dos 40 artistas mais contratados do Brasil. E não é que o cenário fica ainda mais concentrado conforme os valores aumentam? Oito dos dez mais contratados estão ligados a essas cinco empresas.

A líder absoluta é a Camarote Shows, fundada por Wesley Safadão junto ao irmão Yvens Watila Oliveira. Seus contratados somam R$ 701 milhões, puxadas pelos R$ 158 milhões de Natanzinho Lima. Incluindo os artistas que ficaram de fora do top 40, aqueles com pelo menos R$ 10 milhões em contratos, a Camarote chega perto do R$ 1 bilhão, isto em 2.950 shows públicos desde janeiro de 2024.

Logo atrás vem a Vybbe, de Xand Avião, com R$ 522 milhões em 1.436 shows públicos. E a Tapajós (R$ 385 milhõẽs, 1.198 shows), dos empresários Neto Tapajós e Geraldo Estrela Neto, ligada à dupla de ouro do piseiro, João Gomes e Tarcísio do Acordeon.

Outras duas produtoras confirmam o domínio nordestino: a Full (R$ 338 milhões, 1.059 shows), de Rodbala, Junior Fofão e Léo Major; e a M&P (R$ 251 milhões, 926 shows), fundada e gerida pelo cantor Pablo.

QUEM SÃO OS ESCOLHIDOS?

Nas estradas, quando a coisa está no limite, se fala em “no doze”: o velocímetro do caminhão cravado nos 120 km/h. Esse é também o lema de Natã Lima Nascimento, o Natanzinho, sergipano de 23 anos, nascido em Itabaiana — a capital nacional do caminhão. Ele é o número 1 no ranking de shows públicos.

Desde 2024, foram 336 shows e R$ 158 milhões em contratos públicos: um a cada 2,5 dias. Em janeiro de 2024, seu cachê era de R$ 25 mil. No mesmo ano, foi atração do Réveillon de Macapá, por R$ 350 mil — 14 vezes o preço inicial. Em 2026, cobrou R$ 1 milhão para cantar em Mucajaí (RR).

A passada de marcha veio do encontro com o chefe e mentor Wesley Safadão. Foi o contrato com a Camarote que tirou o jovem das estradas para rodar o país em um jatinho, propriedade do irmão de Safadão.

Ele engatou a quinta marcha e ganhou projeção nacional numa live de lançamento da Ganha Bet, em agosto de 2024. A casa de apostas, uma sociedade entre Safadão e o sertanejo Gusttavo Lima, não vingou. Sobrou a briga pelo afilhado: Gusttavo cobra uma fatia dos contratos de Natanzinho; Wesey Safadão diz que o combinado era sociedade só na bet.

O top 10 das bandas mais contratadas por prefeituras e governos estaduais desde 2024 no Brasil é dominado por artistas nordestinos. Apenas uma dupla sertaneja (Maiara & Maraisa) está na lista das dez bandas mais contratadas. Forró, piseiro, brega e arrocha despontam como gêneros subestimados na identificação dos gastos com shows públicos.

MATÉRIA ORIGINAL AQUI - https://deolhonosruralistas.com.br/2026/07/01/dossie-farras/

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