Editorial - Boca no Trombone

Cadê os auxílios e créditos para os micros e pequenos empresários? Cadê a voz berrante estampada de indignação a reclamar o direito que nos cabe? Afinal, somos todos contribuintes, portanto todos temos direitos e deveres.

Há momentos que fico confusa, perplexa, com relação a situação pela qual estamos passando. De um lado, diretores lojistas gritando e pressionando pela abertura do comércio e bares. De outro, o Covid-19 que circula cada vez mais entre nós.
Mil ou mais pessoas falecem por dia. Repito, por dia! Milhares de famílias na dor mais profunda. Somos os hospedeiros dessa coisa e fato é que quanto mais circularmos, neste momento, mais o Covid-19 circulará. Quanto mais vírus próximos de nós, mais chances de adoecermos. Haverá leitos de enfermaria para nos acolher, assim como respiradores, caso precisemos? Há relatos de falta de anestésicos. Sabemos o que isto significa? Conseguimos imaginar o que seja ser entubado sem anestésico?
Fizemos o isolamento da forma devida? Aqui em BH diria que sim, mas e nas demais cidades no entorno? Será que "Belzonte" é uma ilha e eu não estava sabendo? Então, brincadeiras à parte, ouvir representantes de bares clamarem, neste pior momento, pela reabertura dos mesmos me soa um total absurdo.
A minha indignação vai ao encontro igualmente destes tantos prefeitos que brincam com a vida das pessoas, em nome do lucro de alguns. Para nós, sobram as migalhas, a miséria, pois o ganha pão retirado deste trabalho nos bares sempre foi mal pago, incerto e precário, onde nos exigem que levemos o som e até o público e não faltam donos de estabelecimentos para se apropriarem de uma porcentagem razoável de nosso couvert artístico. Será que os artistas são eles? Nos colocam em risco evidente.
Precisamos trabalhar? Mas é óbvio ululante que sim, ainda mais quando o poder público não cumpre o seu papel primeiro que é de proteger sua gente. Falo de investir recursos que serão integralmente gastos no supermercado ou mercearia. Isto é o que faz girar a economia e não o trilhão destinados a compra pelo po-der público de títulos podres dos bancos. Este trilhão, nunca mais o veremos. 
Cadê os auxílios e créditos para os micros e pequenos empresários? Cadê a voz berrante estampada de indignação a reclamar o direito que nos cabe? Afinal, somos todos contribuintes, portanto todos temos direitos e deveres.
Deveres estes que também se aplicam aos representantes do povo, sejam eles executivos, legislativos, judiciário, defesa, etc. São todos remunerados com os recursos dos impostos.
Precisamos trabalhar, mas precisamos estar vivos para fornecer o produto de nosso suor. É um crime esta irresponsabilidade. 
Fraterno Abraço e fiquemos vivos!!

Vera Pape 
Presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais